04 de setembro de 2010
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12/10/2008
Hora de remarcar os dicionários

 

Hora de remarcar os dicionários (Josué Machado)

Chegam às livrarias obras adaptadas à unificação ortográfica, que será obrigatória para os didáticos a partir de 2010

A unificação ortográfica entra em vigor no Brasil em janeiro, mas haverá um período de três anos de adaptação às regras. Mais à frente, deverá valer para os outros sete países de expressão portuguesa. Assim o português deixará de ser a única língua com duas ortografias e poderá ser idioma oficial na Unesco, como defendia o filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), inspirador da mudança.
Nesses três anos de convivência e transição, as duas ortografias serão aceitas aqui em todas as instâncias. Para os períodos letivos de 2010 em diante, no entanto, o governo brasileiro comprará só livros didáticos e de referência com a ortografia unificada. São milhões de exemplares para o ensino fundamental e médio distribuídos às quase 200 mil escolas públicas do país.
Diante dessas informações, confirmadas por Carlos Alberto Ribeiro Xavier, assessor especial do ministro da Educação, Fernando Habbad, as editoras já trabalham para lançar seus dicionários renovados. De todo modo, ninguém deve se desfazer de dicionários e obras de referência. Não perdem o valor. Basta conhecer as alterações previstas, que se resumem, para nós, à supressão de poucos acentos e à tentativa meio furada de simplificar o uso do hífen, tracinho, cuja extinção ninguém lamentaria, a não ser poucos sábios tristes.
Enfim, são mudanças pouco expressivas, que afetam mais os portugueses. Em porcentagem, 0,43% de modificações no vocabulário brasileiro e 1,42% no português. Como ainda há dúvidas sobre a redação de muitas palavras, principalmente por causa do hífen, esses números constituem espantoso refinamento estatístico produzido pelos redatores do Acordo.

Rapidez
Outra razão para manter os livros atuais? Lembrar que os dicionários valem sobretudo pela expressão de significados, que não mudam de acordo, e que nas gramáticas a  ortografia é só um dos aspectos do uso da língua, não o principal.
As editoras nacionais relançarão seus dicionários até o fim de 2009. Se não houver surpresas, o Aurélio sai na frente, até o fim de 2008 ou no primeiro trimestre de 2009, anuncia Emerson Santos, diretor-geral da divisão de Livros e Periódicos da Editora Positivo.
Meses depois será lançado o novo Houaiss, porque a equipe técnica termina de rever s segunda edição em março de 2009, prevê Mauro Salles de Villar, diretor do Instituto Antônio Houaiss. O Michaelis será lançado em 2010, diz Breno Lerner, diretor-geral da Melhoramentos. A versão completa do Caldas Aulete estará na internet, informa Paulo Geiger, editor da Lexikon Editora.
Os minidicionários são capítulo à parte. Houaiss, Aurélio e Michaelis, com 30 mil verbetes, foram lançados para a Bienal do Livro de São Paulo em agosto já de acordo com a unificação. O da Academia Brasileira de Letras, publicado pela Editora Nacional, sairá até outubro com 33 mil verbetes. A surpresa na área foi a rapidez com que os portugueses prepararam dicionários conforme a unificação e os lançaram já no começo do ano. Ainda mais pela resistência que opõe ao acordo e porque ele só deve vigorar na Terrinha a partir de 2014.

Remota
Mauro Villar diz não acreditar num recuo português ao acordo porque os governos já oficializaram sua aceitação. Mas Evanildo Bechara, da ABL, teme que os portugueses ainda o abandonem, porque a população dá evidentes demonstrações de contrariedade.
- Já houve deserções de parte a parte. Basta lembrar os acordos de 1931 e de 1945. Depois de assinados, foram rejeitados por uma ou outra parte.
As editoras portuguesas apostam suas fichas. A Texto, do grupo Leya, editou dois – Novo Dicionário da Língua Portuguesa, médio, 1.653 páginas, e Novo Grande Dicionário da Língua Portuguesa, 2.048 páginas em 2 volumes. A Porto Editora fez o Dicionário de Língua Portuguesa 2009, “o único com o antes e o depois”, também médio, de 1.728 páginas.
Bechara observa que talvez os portugueses tenham sido rápidos demais por tratarem de forma discutível e contraditória certos aspectos da grafia não claramente definidos pelo acordo, em particular em relação ao hífen. Paulo Geiger explica:
- O acordo menciona os prefixos pré-, pró- e pós-, que devem se unir ao hífen, e exclui as formas átonas pre-, pro- e pos- que se aglutinam com o elemento seguinte. Mas é omisso quanto ao re- e não o inclui na lista de prefixos ou de “elementos não autônomos ou falsos prefixos” que pedem hífen quando o elemento seguinte começa com a mesma vogal com que ele termina.
Outro exemplo de Geiger para a não-inclusão do re- nesses casos: ele não pede hífen antes de elementos que começam com h, como todos os outros; o h apenas cai ante o re- como em “reabilitar” e “reaver”.
- Por isso, não estou convencido de que o acordo estipula “re-eleger”, “re-educar”. Ele não é claro quanto a isso.

Critérios insondáveis
Geiger reconhece que o uso do hífen é problema malresolvido e lembra que critério continuarão insondáveis.
- Houaiss, a quem eu enviara uma lista de palavras compostas “duvidosas” quanto ao hífen, devolveu-a anotada, mas sem coerência nem critérios claros: “marca-passo” (verbo + subst), mas “mataborrão”; “limpa-trilhos”, mas “pegaladrão”; “bate-estaca”, mas “catavento”, “paralama”, “mataburro”, “matapiolho” etc. E “lerolero”, mas “ruge-ruge”. E aí?
Por aí se vê que o dicionário da Texto saiu com algumas dessas aparentes contradições. Registra “preeminência”, “preestabelecer”, “preexcelência”, “preexistência”, etc. e “pré-escola”. Dirão ser clara a diferença: pré- com o timbre aberto, acentuado, e seguido de hífen; com timbre fechado, sem acento, sem hífen. Mas saberão todos, que não especialistas, reconhecer quando o prefixo é tônico ou átono? Quando deve ou não ser acentuado? E no Nordeste, em que as vogais e e o soam quase sempre com timbre aberto?
Algo semelhante se passa com o prefixo re-. Só que no dicionário da Texto, re aparece seguido de hífen antes de segundo elemento começado com e, embora seja átono. Estão lá registrados, portanto: “re-edição”, “re-educação”, “re-eleição”, “re-empossar”. Obviamente, com o timbre fechado. Imprevisão dos sábios que redigiram o Acordo, precipitação da editora e provável distração da equipe que preparou o dicionário. (O Vocabulário Ortográfico da ABL manterá “reedição”, “reeducação” etc.)
No caso das palavras compostas por verbo + substantivo, outros casos de incoerência no acordo, que registra “guarda-chuva”, mas “mandachuva”; “paralama’, “parabrisa”, mas “para-choque” etc. o dicionário da Texto ignora essas diferenças e usa sempre hífen, mas registra incoerências como “lengalenga” e “zaz-traz”, entre outras.

Solução Difícil
O fato é que a Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL (Eduardo Portella, Evanildo Bechara e Alfredo Bosi) se debatia até meados do ano para solucionar problemas como esses e lançar em novembro o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) – a relação com a grafia oficial de 360 mil vocábulos. Embora tais problemas pareçam insignificantes, não podem ficar sem solução bem-fundamentada num catálogo dessa importância, espécie de bíblia lexicográfica. Por isso, a Comissão decidiu considerar exceções os exemplos contraditórios do acordo. Bechara admite que o trabalho não ficará perfeito:
- Procuramos eliminar dúvidas e normatizar o Vocabulário da melhor maneira possível, mas sempre haverá críticas. Depois de muita discussão, tivemos de arbitrar em casos não previstos porque os problemas vão surgindo do exame de cada palavra discutível. Com o trabalho cuidadoso ao extremo, a surra dos críticos será menor.
Registrará, por exemplo, “erva mate”, mas “erva-de-santo-inácio”, nome de planta; “bico de papagaio”, anomalia em discos da coluna vertebral, sem hífen, como toda locução, e”bico-de-papagaio”, planta.

Trabalho de base
“O lacunoso acordo”, como o chamou Bechara, previa que o Volp seria o trabalho de base para a preparação dos dicionários. O atraso na preparação provocou a queixa dos editores, que talvez não possam esperar a lista normativa da ABL. Por isso, prepararam seus minidicionários como puderam, resolvendo por si as contradições do Acordo, às vezes com consultas informais à ABL.
Breno Lerner, da Melhoramentos, é um dos que se queixaram:
- A dificuldade, neste momento, é a falta de referências. O texto do acordo é vago em alguns tópicos, chegando a se contradizer em relação ao uso do hífen. Como até agora não temos o Volp reformado, cada editor adota sua própria interpretação do texto.
É quase certo, no entanto, que o Volp ficará pronto a tempo de ser usado pelas editoras. Assim que o hífen for minimamente domado, a ABL poderá transmitir a elas os resultados antes de publicar o listão. É a esperança de que não haja trombadas interpretativas entre dicionários de respeito.


O que muda

Caem acentos, mas o hífen continua por causa de exceções e critérios obscuros

Regras simples
Alfabeto
passa de 23 para 26 letras. K, w e y voltam de onde, na prática, jamais saíram.
Trema é eliminado das palavras portuguesas e aportuguesadas, mas permanece em nomes próprios estrangeiros e derivados: Hübner, hüberiano, Muller. Palavras como “agüentar”, “cinqüenta”, “argüir” e “tranqüilo” ficam sem trema.

Acentuação
Perdem o acento:

a) Os ditongos ei e oi de timbre aberto das paroxítonas (a sílaba tônica é a penúltima), como em “assembléia”, “heróico” e “jóia”. Continuam acentuadas éi e ói de oxítonas e monossílabos tônicos de timbre aberto: constrói, dói, herói, anéis, anzóis, cruéis, fiéis, faróis, papéis. E mantém-se o acento no ditongo de timbre aberto éu: céu, chapéu, ilhéu, véu.

b) Os hiatos ee e oo. (No caso de ee, em crer, dar, ler, ver e derivados, na 3ª pessoa do plural). Como em: “crêem”, “dêem”, “lêem”, “vêem”, “abençôo”, “côo”, “corôo”, “enjôo”, “perdôo” e “vôo”.

c) As paroxítonas homógrafas (acento diferencial), como em “côa” (verbo “coar”); “pára” (verbo); “pela” (substantivo e verbo); “pêlo” (subst.), “pélo” (verbo) e “pelo”. Mantém-se em pôde e pôr. Facultativo: substantivo “fôrma”, em oposição ao substantivo e forma verbal “forma” (3ª pessoa do singular do presente do indicativo).

d) O i e o u tônicos das paroxítonas se precedidas de ditongo, como “baiúca”, “feiúra”, “cheiínho” e “saiínha”.

e) O u tônico de formas verbais rizotônicas (com acento na raiz) quando parte dos grupos que e qui; gue e gui: “apazigúe”, “argúem”, “averigúe”, “obligúes”.

O hífen que muda
O uso do hífen é problema malresolvido, com casos em discussão na ABL, mas valem as seguintes regras:

a) Não se usa se o prefixo termina em vogal e segundo elemento começa com r ou s, que se duplicarão.

Mas o hífen se mantém quando os prefixos hiper-, inter- e super- se ligam a elementos iniciados por r.
Como em: hiper-rancoroso, hiper-realista, hiper-requintado, hiper-requisitado, inter-racial, inter-regional, inter-relação, inter-resistente, super-racional, super-realista, super-resistente, super-revista.

Antes Depois
Ante-sala, anti-rugas Antessala, antirrugas
Auto-retrato, contra-senso Autoretrato, contrassenso
Extra-regimento, infra-som Extraregimento, infrassom
Ultra-romântico, ultra-som Ultraromântico, ultrassom
Semi-sintético, supra-renal Semissintético, suprarrenal
Supra-sensível Suprasenssível



b) Usa-se quando o prefixo termina com mesma vogal que inicia o segundo elemento. “Anti-inflacionário”, “arqui-inimigo”, “micro-ondas”, “micro-ônibus”, por exemplo, ganham hífen.
Mas não se usa com o prefixo co-, ainda que segundo elemento comece pela vogal o: “coocorrer”, “cooperar”, “coordenar”.

c) Não se usa se o prefixo termina em vogal diferente da que inicia o segundo elemento.


Antes
Depois
Auto-escola, contra-indicado Autoescola, contraindicação
Extra-oficial, infra-estrutura Extraoficial, infraestrutura
Intra-ocular Intraocular
Neo-expressionista Neoexpressionista
Semi-árido, supra-ocular Semiárido, supraocular
Ultra-elevado Ultraelevado


Usa-se o hífen quando o segundo elemento começa por h: ante-hipófise, anti-herói, anti-higiênico, anti-hemorrágico, extra-hepático, neo-helênico, semi-herbáceo, super-homem, supra-humano etc. Mas: desumano, desumidificar, inábil, inumano. (2º elemento perde o h).

d) Não se usa hífen em compostos em que se perdeu a noção de composição.

Antes
Depois
Manda-chuva Mandachuva
Pára-quedas Paraquedas
Pára-lama, pára-brisa Paralama, parabrisa
Pára-choque Parachoque


 

 




O que não muda no hífen

Continua-se a usar hífen nos seguintes casos:

1) Em palavras compostas que constituem unidade sintagmática e semântica e nas que designam espécies: ano-luz, azul-escuro, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi.

2) Com os prefixos ex-, sota-, soto-, vice-, vizo-: ex-mulher, sota-piloto, soto-mestre, vice-capeão, vizo-rei.

3) Com prefixos circum- e pan- se o segundo elemento começa por vogal e m ou n: pan-americano, circum-adjacência.

4) Com prefixos tônicos acentuados pré-, pró- e pós- se o segundo elemento tem vida à parte na língua: pré-bizantino, pró-romano, pós-graduação.

5) Com sufixos de base tupi-guarani que representam formas adjetivas: -açu, -guaçu, e –mirim, se o primeiro elemento acaba em vogal acentuada ou a pronúncia exige a distinção gráfica entre ambos: amoré-guaçu, manacá-açu, jacaré-açu, paraná-mirim.

6) Com topônimos iniciados por grão e grã e forma verbal ou elementos com artigo: Grã-Bretanha, Santa Rita do Passa-Quatro, Baía de Todos-os-Santos, Trás-os-Montes etc.

7) Com os advérbios mal e bem quando formam uma unidade sintagmática com significado e o segundo elemento começa por vogal ou por h: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado, mal-estar, mal-humorado. Mas nem sempre os compostos com o advérbio bem se escrevem sem hífen quando tal prefixo é seguido por elemento iniciado por consoante: bem-nascido, bem-criado, bem-visto (ao contrário de “malnascido”, “malcriado” e “malvisto”).

8) Nos compostos com os elementos além, aquém e sem: além-mar, além-fronteiras, aquém-oceano, recém-casados, sem-número, sem-teto.


Hífen em locuções
Não se usa hífen nas locuções (substantivas, adjetivas, pronominais, verbais, adverbiais, prepositivas ou conjuntivas), como em: cão de guarda, fim de semana, café com leite, pão de mel, pão com manteiga, sala de jantar, cor de vinho, à vontade, abaixo de, acerca de, a fim de que.
São exceções algumas locuções consagradas pelo uso.
É o caso de expressões como: água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao-deus-dará, à queima-roupa.

(Josué Machado – Revista Língua Portuguesa, Ano III, nº 35)

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